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Lost in Rio Grande

por Eliezer Guerra
em:

Engraçado como são as coisas.

Ontem escrevi um post sobre o filme Paulistas Gaúchos. Assisti esse documentário do Paes Janete pela primeira vez em 1999, num festival de documentários em São Paulo, e pela segunda vez em DVD que esse mesmo amigo me apresentou.

Hoje, recebo uma ligação de um amigo elogiando o filme e contando a história que existe por trás de sua produção.

Essa história quase é mais interessante que o próprio filme. A idéia de filmar Paulistas Gaúchos veio em 1979, pouco mais de um ano depois do enchimento da barragem de Ilha Comprida. Foi numa conversa com Marieta Correa, uma jornalista que cobriu boa parte da construção da hidrelétrica. Correa estava desapontada em não poder ter escrito tudo que queria ter escrito em suas reportagens, em especial sobre a população ribeirinha desabrigada com a cheia da barragem. A jornalista ofereceu seu material e propôs que Paes Janete transformasse em um documentário.

Só em 1985, Paes Janete decidiu iniciar suas pesquisas, com base no material fornecido por Correa. Mais, seis anos depois, parte significativa do material estava defasada.

Por exemplo, os desalojados foram realocados pela ditadura para a cidade de Cambará do Oeste, no norte do Paraná. Um lugar desastroso. Dois anos depois, a comunidade dos desabrigados, organizada, conseguiu mudar-se para o Rio Grande do Sul, fundando a comunidade de Nova Esperança do Jaguarão.

Isso está no documentário para quem quiser assistir. Não está no documentário, porém que Paes Janete passou três semanas em Cambará do Oeste, pesquisando e entrevistando moradores sobre a represa, até descobrir que estava no estado errado.

Em 1987, Paes Janete e Correa publicaram juntos um livro-reportagem denunciando as mazalas do tratamento com os desabrigados pela enchente.

Só em 1989, Paes Janete juntou coragem e financiamento para filmar. Começaram as filmagens no final de 1989, só para vê-las interrompidas pelo fechamento trágico da Embrafilme pelo Collor, no ano seguinte. Não conseguiram continuar.

O documentarista Ricardo Songa chegou a sugerir ao colega, em 1993, juntar o material existente e montar um documentário sobre a filmagem que não se logrou. Algo como um Lost in La Mancha brasileiro. Lost in Rio Grande do Sul. (ou em Cambará do Oeste...) Paes Janete, recusou.

Em 1995, retomou a coragem e o financiamento e conseguiu terminar seu documentário, vendo uma cidade com mais de quinze anos de história. Uma história que ele em parte, acompanhou.

De novo, recomendo. Paulistas Gaúchos, de Roberto Paes Janete, finalmente lançado em 1998. (um link que a Carolina mandou que eu publicasse: Paulistas Gaúchos no IMDB)

Paulistas Gaúchos

por Eliezer Guerra
em:

Paulistas Gaúchos é um documentário/romance de Roberto Paes Janete, de 1998. O filme conta a história da gaúcha de Novo Esperança do Jaguarão, fundada em 1978 por um grupo de agricultores paulistas que foram expulsos de suas terras pela construção da represa da Hidrelétrica de Ilha Comprida.

A narração do filme concentra-se na história de duas famílias que lutaram em 1978 pela indenização sobre a represa, e como foram realocados para tão longe de suas casas pela ditadura militar, às margens do Rio Jaraguão. Vinte anos depois, Paes Janete consegue recuperar as histórias de Ricardo e Maria Leme, João e Luiza de Cunha e mostra novas lutas que são enfrentadas por sua nova geração.

Paulistas Gaúchos emociona por sua simplicidade e por sua realidade. As histórias de quem constriuiu novas vidas em outro lugar são, no mínimo, interessantes.

(duração: 1h40)

Harry Yamamoto

por Fabio Brandão
em:

Ao contrário dos meus colegas de blog, vou fazer uma apresentação rápida. Eu sou o Fábio Brandão, estudo jornalismo e moro em São Paulo com minha namorada. Vou cobrir neste blog os best-sellers e cultura pop em geral. Inauguramos agora nossa seção best-sellers.

A novidade da autora inglesa Milly Slaugh já está nas livrarias. Desde a primeira semana, ele não saiu do "mais vendidos" da Veja e não vai sair tão cedo. Compre agora para dar para os seus filhos e próximo amigo seu que fizer aniversário!

Em Londres, um menino japonês que sonha em ser um samurai, Harry Yamamoto, descobre que é órfão e que seus pais eram grandes feiticeiros. Ele é em seguida enviado pelos pais adotivos a um internato no interior da Inglaterra e ali acha um guarda-roupa que o leva para um mundo mágico e fantástico. Ele e sua irmã gêmea vão ter que lutar pela liberdade daquela mundo e impedir que o malvado imperador domine tudo com o auxílio do comandante Dort Yamamoto e os Três Anéis da Força, cujo poder só será libertado com um código secreto escondido no sorriso da Mona Lisa.

É o próximo best-seller da temporada!

(notas: 450 páginas, traduzido por Ricardo Ferraz, editado pela Rocco)

Jantar francês

por Carolina Souza Andrada
em:

Juan Girardía

O livro Jantar francês, do mexicano Juan Girardía, marcou uma inovação estética radical em 1911, abrindo espaço para a escola modernista do México anos mais tarde.

O livro -- genial, diga-se, de passagem -- foi controverso nem tanto pelo conteúdo, mas principalmente pela sua forma. O conteúdo é uma sátira ácida sobre o romantismo e as altas classes mexicanas, algo que já havia se tornado bastando corriqueiro naquela época.

A forma é que incomodou. Juan Girardía já era um autor famoso quando lançou o Jantar, de forma que sua obra teve bastante repercussão. Alternando trechos de linguagem vulgar e linguajar pedante, o livro de menos de 200 páginas chocou o público. Uma sucessão interminável de personagens, apresentação absurdista de situação corriqueiras e referências obscuras a autores antigos gregos e folclore mexicano deixou a crítica completamente atônita.

A primeira edição foi escrito em 137 capítulos curto e disconexos. (cinco desses capítulos pertenciam na verdade a dois outros livros do autor publicados anteriormente). Logo após o lançamento, incompreendido pela crítica, pelo público e por si mesmo, Girardía acusou o revisor de ter destruído sua obra. Lançou do próprio bolso, seis meses depois, uma segunda edição corrigida e revisada pelo autor. Praticamente idêntica e não menos incompreensível que a edição anterior, trazia quatro capítulos novos.

Conseguiu ao menos fazer um sucesso pela controvérsia. Esquecido depois de alguns meses foi reabilitado pelo movimento modernista no Festival de Guadalajara, em 1925. Hoje, ainda que pouco conhecido no resto do mundo, faz parte do cânone mexicano de livros obscuros que devem ser lidos.

A história no fundo é simples. Na primeira parte, uma moça romântica de uma família de classe alta na Cidade do México resolve oferecer um jantar no estilo francês para seu noivo. Seus pais entusiasticamente à apoiam nessa empreitada e comprometem-se a providenciar o necessário. Toda essa primeira parte é narrada num tom absurdista, sem usar nenhuma expressão clara para indicar o que está acontecendo. O resultado é cômico.

Subitamente, o livro muda de rumo e parece tornar-se uma saga, durante as preparações do jantar. No que parece ser uma alucinação da moça, a segunda parte que se segue descreve mil maneiras de como o jantar pode dar errado, incluindo o lustre despencando em cima da sobremesa, ou o noivo sendo atropelado por uma manada de zebras durante o prato principal.

A terceira parte começa com a chegada do noivo à casa, tomando um caminho quase lisérgico a partir daí. Aí se misturam dezenas de personagens, inclusive de outros livros, até chegarmos aos dois capítulos finais, onde a moça sonha em estar casada e preparar um jantar francês a sua filha.

Curiosamente, nenhum capítulo do livro trata do jantar em si.

A tradução brasileira é de 1971, assinada por Juan Villa Costa e editada pela Edusp. Uma edição comentada comemorativa de cem anos da obra está sendo preparada em espanhol por Juan Carlos Gonzalez, um estudioso da obra de Girardía, e deverá ser lançada daqui dois anos (naturalmente!) pela editora da Universidade do México.

Quando Veneza emergir das águas

por Rogério Zarachinni
em:

Imagem de Veneza afundada

A cidade de novo, de Vicenzo Brunelli (a rigor, uma história futurista, mas com o foco mesmo no passado) narra as histórias de descendentes de venezianos que têm a oportunidade única de ver uma cidade ressurgir do passado.

Por volta de 2020, por fatores não mencionados no livro, Veneza afunda nas águas. Oitenta anos depois, a cidade reemerge e os italianos decidem retomar a vida lá. Aos poucos, descendentes dos antigos venezianos descobrem a cidade dos seus ancestrais, encontram os lugarem onde viveram seus avós. É uma grande reconquista. Não uma história de cowboys indo em direção a Califórnia, mas italianos comuns retomando uma velha (e linda) cidade alagada.

Frederica Cacciari é uma arquiteta-arqueóloga, está trabalhando no projeto do governo italiano para recuperar a cidade. Ahmed Gabrieli, trisneto de um veneziano, é um dos primeiros a trazer a família na cidade sendo reconquistada. Giulio Longobardi volta com sua centenária bisavó, que aos poucos vai recuperando as memórias velhas de sua infância nos últimos anos de Veneza.

É uma história incrível, uma declaração de amor pela cidade de Veneza, uma crônica atemporal sobre a cidade. É também um relato sobre canais, praças, pontes e esquinas.

O veneziano Vicenzo Brunelli
Vicenzo Brunelli

E é, naturalmente, um texto um pouco autobiográfico, já que o próprio Brunelli é veneziano e passou vinte anos de sua juventude longe da sua terra natal. Além disso, fica implícito em duas passagens que a bisavó de Longobardi poderia ser a neta do autor.

Com pouco menos de 300 páginas, é uma leitura leve, nostálgica e às vezes engraçada. Vale a pena. A competente tradução para o Brasil é de Paulo Alcino, pela Editora Garamond.

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