Qariovak

Honestamente, nunca fui lá muito interessada em filmes com animais. Sempre associei a presença dos bichos com a falta de um enredo consistente e de atores minimamente decentes, e isso pôde ser visto por várias vezes em filmes como Beethoven e Baby, o Porquinho Atrapalhado. A última moda é inventar filmes que humanizam o animal, tornando-o personagem de influência emocional fundamental dentro da história, como é o caso de Marley & Eu, que fiz questão de NÃO assistir, até por ter Jennifer Aniston como atriz.
Felizmente, existem exceções. Um amigo meu me recomendou um filme de 2006, em cartaz em alguns cinemas alternativos de São Paulo e Cajamar desde semana passada, que tem um animal como personagem central da trama. Porém, o filme não é piegas nem pobre, muito pelo contrário. É rico sociologicamente e antropologicamente. Trata-se de Dear Qagmikiñooqqholjmi (Canadá, 2006), um filme bastante profícuo sobre o amor que uma pequena menina esquimó nutre por sua baleia de estimação. Graças à beleza de sua fotografia e da atuação excepcional da pequena Chloe Wootqie, a fita venceu o Festival de Cinema de Saskatoon no mesmo ano de seu lançamento.
Em longuíssimos 174 minutos de filme, dirigido pelo finlandês naturalizado canadense Mika Kajiomaki, vemos a história de Qariovak (Chloe Wootqie), uma pequena garota de 11 anos criado em uma tribo inuit, localizada no norte do Canadá. Órfã de pai e dividindo um gélido iglu com sua mãe Tooteq (Irene Bedard) e seus quatro avós no subúrbio da isolada cidade de Iqaluit, Qariovak não tem amigos e seu único brinquedo é um pedaço de um petroleiro que afundou na região em 1987. Um dia, sua família saiu para a tradicional caça de baleias de Domingo, com Qariovak acompanhando. Enquanto os adultos vão para um lado, a menina segue para o cais de Qataketruk, e acaba encontrando uma baleia com uma enorme arpão fincado em sua pele.

Desesperada, a menina corre e tenta, de todas as formas, retirar o arpão. Consegue. Inicia-se a parte sentimental do filme: a menina começa a visitar o cais todo dia. Começa um caso de amizade entre ela e o animal, que ganha o nome de Qagmikiñooqqholjmi. A menina passa a proteger a baleia da ameaça de navios petroleiros e caçadores em geral. Com o aquecimento global e a consequente falta crescente de alimentos para a baleia, Qariovak leva os poucos peixes que sua família armazena à sua nova amiga. Um dos momentos mais marcantes é o da briga entre Qariovak e sua família, que queria caçar justamente Qagmikiñooqqholjmi.
O filme trata de outros assuntos, como o estilo de vida esquimó, as agruras de quem depende de alguns dias ensolarados para caçar e realizar outros empreendimentos, a opressão de grandes companhias petrolíferas com os povos indígenas norte-americanos e até mesmo uma reflexão existencialista de Tooteq, que sonha em ir para Vancouver tentar uma vida melhor. A trilha sonora é uma atração à parte, com a música tribal misturada com acid jazz de Louise Iñagootook, considerada uma "Ella Fitzgerald aleutiana".
Confesso que caso o filme fosse hollywoodiano ou bollywoodiano, eu sequer me daria ao trabalho de ir ao cinema. Mas Dear Qagmikiñooqqholjmi é uma bela trama que mostra a exótica e bela cultura inuit usando como mote um belo relacionamento entre uma menina e uma baleia. O emergente cinema inuit não poderia estar melhor representado no Brasil.


Uma das coisas mais notáveis na música é a aparência. Já vimos de tudo, dos cabelos coloridos lotados de laquê dos notáveis do new wave oitentista até a indumentária cuidadosamente desleixada dos alternativos da nossa década atual. Em muitos casos, a identidade visual se torna até mais importante do que a música (e isso vem ocorrendo com frequencia...).