Primeiramente: peço desculpas aos meus nobilíssimos colegas do Literary Preview por não compreender com fluência a "última flor do Lácio, inculta e bela", como costuma dizer Carolina, e por não conseguir exprimir o que realmente quero. Só escrevo em francês e graças aos esforços de Carolina e Eliezer, meus textos estão aqui.
Escrevo sobre cultura francesa. E só. Perdoem-me os globalizados, mas devo proteger e divulgar nossa secular história e imaculada cultura. Perdoem-me, également, os antifranceses, mas devo me orgulhar muito de meu país. Sou compatriota de Voltaire, Flaubert, Mondrian, Monet, Manet, Lévi-Strauss, Robespierre, Napoleão... A melhor culinária do mundo é nossa. O melhor vinho do mundo é o nosso. Perdoem-me todos, mas vive la France!
Meu primeiro artigo fala sobre culinária. Mais precisamente, sobre um restaurante do qual dois amigos, que são franceses mas que moram aqui, me disseram coisas excelentes sobre. Eu realmente sinto falta da verdadeira culinária francesa. Decididamente, o Brasil não é um lugar bom para nossa culinária. O calor não permite que os alimentos fiquem frescos. Os animais criados aqui não são devidamente higienizados e têm um incômodo sabor de hormônios. Os sommeliers não sabem diferenciar um merlot de um chardonnay. A água utilizada tem o bouquet afetado pelo excesso de flúor e cloro, devido à poluição dos rios. Por isso, me interessei pela recomendação.
O restaurante em questão é o La Cuisine Jaune (Av. Pompeu de Toledo, 542). O mais impressionante é que este logradouro não se localiza em São Paulo, mas sim em Araçatuba! Nunca ouviu falar? É uma cidade de 181 mil habitantes localizada a 513km de São Paulo. Um incômodo dos grandes para mim ter de me locomover em direção a uma cidade ainda mais quente e insuportável do que São Paulo. Porém, o dever me chama.
Primeira observação: o nome. Me irrita profundamente a falta de criatividade dos nomes dos restaurantes franceses no Brasil. Em São Paulo, de cabeça, me lembro do La Paillote, do La Tambouille, do Eau, do La Cuisine du Soleil e do La Casserole. Nomes primários, que podem muito bem ter sido retirados de um dicionário e combinados com um artigo definido. Talvez o dono do "A Cozinha Amarela" nem saiba o que significa o nome, o que
pode ser percebido pela coloração azul pastel das paredes da cozinha. Se depender do nome, já não teria gostado. Porém, não é apenas isso que deve ser percebido.
O La Cuisine Jaune está localizado em um bonito casarão de três andares construído em 1939 por uma família tradicional da região. Depois de ter passado pela mão da Prefeitura, de um museu e de uma igreja evangélica, o ponto está nas mãos de Clemente Firombelli, o jovem chef de 28 anos com passagem pela conceituada École Le Cordon Bleu. Firombelli diz que "pretende divulgar a culinária francesa na pujante região de Araçatuba a um
preço condizente com a realidade brasileira".
Ele consegue, em partes. Os preços não são exatamente condizentes com a realidade brasileira, visto que um mísero copo de 500ml de suco de laranja custa R$ 6,50. Porém, a culinária francesa é reproduzida com a maior boa vontade possível no Cuisine Jaune. Dispense o menu confiance, oferecido no almoço a um preço de R$ 49,90 por pessoa. A matéria-prima utilizada ao meio-dia é remanescente do que foi utilizado no jantar do dia anterior. Fuja. O forte do restaurante é oferecido à noite.
Começo com os escargots (R$ 53,00 a dúzia) oferecidos como entrada. A textura dizia que os moluscos já estavam entrando na meia-idade. O molho de alho que acompanhava, porém, era ótimo. Eu realmente perdôo o fato do coq au vin (R$ 67,00) ser oferecido com galo e vinho do porto, porque o trabalho é bem-feito. A perna de carneiro com feijão branco (R$ 49,00) é feita com desenvoltura e a carne se dissolve na boca. O filet au poivre (R$ 55,00) gera uma dúvida a mim: será que é bonito usar pimenta jalapeño para um prato francês? O risoto de queijo taleggio, shiitake e palmito pupunha (R$ 82,00), apesar de ser um acinte globalizatório, é muito bom.
As sobremesas eram bem melhores. Mas não eram francesas. Um bufê, a R$ 32,00 por pessoa, disponibilizava pé-de-moleque, doce de sidra e de abóbora, profiteroles de chocolate branco, pudim de maria-mole e sorvete artesanal à vontade. Me arrependi amargamente de não ter começado pelos doces.
Por fim, os vinhos. Uma carta de 35 títulos, sendo que apenas quatro deles eram franceses, é algo deveras vergonhoso para um restaurante tão pretensioso. Porém, o tinto Baron d'Agrouillet safra 2005 me surpreendeu. Por apenas R$ 29,00, uma ótima garrafa com encorpado líquido feito com uvas cabernet sauvignon com inconfundível aroma amadeirado e retrogosto de fruta-do-conde. Excepcional!
O Cuisine Jaune não é barato nem genial, mas dá para o gasto para uma região ainda inóspita no quesito culinária. E está acima da média com relação aos restaurantes franceses da capital. Se você tem dinheiro mas não é lá a pessoa mais exigente abaixo dos trópicos, é um bom lugar para comer algo que remeta à culinária mediterrânea de baixa classe. Nota 6.