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Como roubar uma herança em Caiena

por Eliezer Guerra
em:

A Herança de Maurice Rognon, 1994, é um livro do autor francês Martin Martinet, sobre o panorama de Caiena do final do século 19. Em 1897, aporta em Caiena um certo Philipe Verre, um rapaz de boa aparência, anunciando-se como sobrinho do recém-falecido governador Maurice Rognon, sem mulher nem filhos. Philipe Verre teria vindo para reclamar a herança do tio.

Claramente um estelionatário, é recebido friamente por um amigo próximo de Rognon, o inspetor de polícia Herbert Lesvant. Ainda assim, Philipe consegue conquistar o apoio de Mme. Lesvant e de um outro senhor amigo de Maurice, um ingênuo naturalista inglês chamado Paul Christie. Aos poucos, Verre ganha até a confiança de Lesvant, e consegue forjar um telegrama da polícia de Paris que certificaria sua autenticidade.

Afora a pequena trama de picaretagem, o livro é um divertido retrato, e bastante fiel, da Guiana Francesa no final do século. Martinet traz descrições cuidadosas da vida colonial, da relação com as colonias penais (trazendo inclusive um capítulo sobre a soltura de Alfred Dreyfus), ou da exploração extrativista na floresta, ou sobre as relações com Brasil e Guiana Holandesa.

É um romance histórico agradável de ler. Algo na linha de um Márcio Souza ou um Camilleri. 300 páginas, publicado pela editora Garamond e traduzido por Luciana Mirelli.

MPB à Tuba

por Fábio Brandão
em:

Trivial - Ana Motta

O nome dela é de cantora da MPB. O nome do disco é nome de disco de MPB - um banquinho, um violão e uma bateria em ritmo de cool jazz. A foto capa, então, é dessas mineiras que cantam a saudade da sua cidade pequena dentre as montanhas. Mas é um pouco mais que isso.

Ana Motta é uma cantora acreana, radicada no Rio Grande do Sul. (sim, o Acre existe!) Ainda que forte herdeira da tradição da MPB, soube trazer uma inovação estética bastante própria. Isso se deve a sua história profissional: estudou tuba durante anos, no conservatório de Porto Alegre, malgrado sua baixa estatura. Por volta dos vinte anos, foi tentar ganhar algum dinheiro cantando Chico Buarque e Caetano Veloso com um violão em bares de Porto Alegre. Fazia sucesso com uma voz possante.

Quando abandonou o banquinho-e-um-violão em 2005 para começar tocar suas próprias músicas, e tentou conciliar sua bela voz de cantora com a tuba. O que pareceria uma certa impossibilidade física foi contornada alternando momentos instrumentais com uma poderosa canção a capella. Em 2006, começou parceria com o guitarrista Guilherme Barquinho (esse é o sobrenome dele, mesmo, e, surpreendetemente, ele não virou compositor de bossa nova), adicionando novos elementos para a conjunção musical. O CD Trivial é o resultado dessa parceria, o primeiro CD da dupla.

Faixas do CD Trivial:

  • Trivial
  • Lantejoulas cinzas
  • O triste fim de Francisco Ferdinando
  • Vindicações
  • Meu Nome é Gal
  • Trivialidades
  • Metal, metal
  • Uma canção no rio Guaiba
  • Música que vem do fundo da terra
  • Eu vim do Acre

Com exceção de "Meu Nome é Gal", todas as músicas são de composição dela. Vale a pena conferir. Diz ela que está planejando um novo CD, mixado para poder juntar o canto com a tuba. Promete.

Vicky Ardeen, outra rainha do crime

por Rogério Zarachinni
em:

Aproveitando que Eliezer Guerra trouxe a tona os policiais de Patrus Ananneus, venho aqui fazer uma justa reverência ao profílico trabalho da grande escritora de policiais inglesa, Vicky Ardeen. Hoje com 83 anos, Vicky Ardeen tem nas costas 73 livros de mistério publicados. Todos com mais ou menos a mesma história, é fato, mas extremamente cativantes.

Vicky Ardeen
A escritora inglesa Vicky Ardeen

Vicky Ardeen nasceu em Sussex em 1926, em uma família de classe média. Aos vinte e cinco anos, no pós-guerra e no auge do sucesso de autores policiais como Agatha Christie, Anthony Cox e Ariadne Oliver, publicou seu primeiro livro, Mistério à Meia Noite e Cinco. Um pequeno sucesso para uma autora iniciante, foi o suficiente para lhe dar gás para escrever tantos outros livros ainda na década de 50, como Nata do Crime, A Segunda Morte se dá na Terceira Badalada do Relógio e Assassinato!. Nesse primeiro momento, Vicky Ardeen cria dois dos personagens que lhe farão famosa: o detetive amador Lucius "Newt" Burnham (do Mistério à Meia Noite e Cinco) e a espiã do MI5 britânico, Penny Waterhouse (de A Sibéria vem até nós).

Na entrada dos anos 1960, Vicky Ardeen aprofunda-se no que lhe faria famosa: tramas extremamente complexas e aparentemente absurdas/surrealistas à primeira vista (embora com uma solução bastante clara no final do livro). Dentre os livros de destaque dessa fase, temos A Morte veste Rosa-Choque (Newt Burnham começa a investigar a morte de um maçom enforcado com um cachecol rosa-choque), O Assassinato do Cérebro Eletrônico (com Penny Waterhouse, sobre a sabotagem de um megacomputador inglês), A Noviça Rebelde (com Julie Andrews) e, principalmente, Quem Matou Maureen Fordman (Maureen Fordman chega em Londres depois de uma viagem e descobre que sua melhor amiga foi presa por... seu assassinato, com testemunhas).

Entrando na década de 70, o tom muda, para algo mais sanguinolento, embora com a mesma propensão a tramas complexas. Temos obras como Crime e Castigo (Rodion Raskolnikov assassina uma dona de uma loja de penhores em Londres) e novos personagens, como Mark e Jules Liszt, um casal de trinta anos com uma agência particular, apresentados em livros como O Crime Em Londres (apresentando a solução para o assassinato no começo do livro, não fosse pela falta de uma morte) e A Morte sobre o Tâmisa.

Por volta dos anos 80, Vicky volta ao estilo mais clássico de livros policiais. Publica nesse momento O Assassinato à Espreita e Ciprestes Sempre Verdes. Assim permanece até 1994, quando anuncia sua aposentadoria após publicar o livro Peter Carraro. Ainda faz um comeback em 1999 com As 200 mortes de Vicky Ardeen, edição comemorativa, republicando contos antigos. Em 2002, volta a escrever, ainda que em ritmo mais espaçado, publicando Venenos, uma série de contos inéditos sobre venenos, A Morte de Newt (2005, assassinando seu principal personagem, com um infarto, e tratando de criar um assassinato no velório). Pretende lançar ao final de 2009 ainda mais um livro, retomando o personagem pouco lembrado Peter Cartwright.

Retomarei o assunto em breve, trazendo trechos marcantes da obra de Vicky. Até lá!

Hiatus

por Eliezer Guerra & Carolina Souza Andrada
em:

Intehompemus NOSsa programaçõ par auma mensagem epsecial dos editores:

Retomamos hoje as atividades desta Revista Literória apás um pe queno peróido sem publicaçOes Nesta Ultima Smemana.

Esplicamos: no ultimo dia 14 o sindicato dos tipógraphos da gráphica que imprime diariámente o literarY Preview decretou GREVE POR MELHORES SALÁRIOS! Felismente, os opressores donos da graphica entraram em um aco-rdo para re-to-MAda dos trabalios no dya de oge. COmo a cuestã ainda nao esta com-pleta-mente acERTada, esperaçe uma espéssie de Operassão Tertaruga, com a in-cluzõ delibreaaad de erorrs tipographICos nos artigos publicados nos proximos dias.

Retomaremos em breve noças atiwidades normaes. Agradaçamos a compransão.

Agora voltamos com nossa programação normal!

Don't cry for me Honduras

por Rogério Zarachinni
em:

El pronunciamento

Três passos para um Golpe é uma divertida produção hondurenho-mexicana (hondurenho?!) de 2005, dirigida por Pablo Gutierrez. Às vezes encontramos filmes extremamente bem produzidos vindo de lugares que não esperávamos. Nesse caso, a experiência da Televisa (ainda que sem os dramalhões que a fizeram famosa) ajudou.

O filme trata dos bastidores de um golpe de Estado na década de 70 em Honduras. O presidente Alonso Jamón tinha ido longe demais para muitos no país. Os deputados Júlio Archimedes, Felicio Gusmán e o senador Lucio Ortega formam um grupo para tramar um golpe de estado contra Jamón. Negociando o apoio da CIA, dos Generais Felipe Churro e Francisco Motors e, estranhamente, da KGB, os golpistas convencem-se da viabilidade do golpe.

Um plano é cuidadosamente traçado pelo estrategista Marcus Gonzaliñez, um baixinho maquiavélico metido num fraque com a manga longa demais para ele. Segundo Gonzaliñez, são três passos para um golpe: desordem (criar um problema), emergência (criar uma solução) e el pronunciamento (o golpe propriamente dito). Todos os detalhes e todos os planos B fechados.

Mas, naturalmente, tudo pode ir tudo ao avesso. Jamón, alheio ao que se passava, consegue escapar ileso de cada uma das tentativas. Os golpistas conseguem derrubar aliados, o próprio Ortega e mesmo um presidente de um país vizinho. Nem a ajuda de última hora de um agente da CIA, Philip Morris, consegue reverter o jogo.

É engraçado e é latino. Procurem na locadora mais próxima e dificilmente vão achar, mas uma hora dessas o filme pode cair nas suas mãos, assim como caiu nas minhas.

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